Eu me percebo como um menino de 5 anos de idade. Estão me segurando pelos braços com firmeza. Não consigo me soltar. O local é uma pequena aldeia, uma tribo em uma encosta que se ergue acima de um vale. As casas simples, incrustadas no terreno inclinado, feitas de pedra e telhados de palha e musgo, servem de abrigo às intempéries. Um dia cinza, frio e úmido.
Afastando-se de mim, vejo minha mãe, dando as costas para mim e para a aldeia, indo embora, descendo uma trilha em direção ao vale, com outras pessoas.
Eu sabia que nunca mais iria vê-la.
Eu grito para ela. O desespero do menino me toma completamente, e eu grito mais e mais. Choro a dor dilacerante da perda de minha mãe. Choro o choro daquele menino. Sinto a plenitude da dor dele, a minha dor. O choro dele, o meu choro. Tudo tão presente, mesmo agora, quando escrevo estas palavras.
. . .
Com os anos, conforme essa dor foi se dissipando, vim a entender que a aldeia fazia parte de um sistema econômico onde os impostos eram pagos com pessoas, onde escravos tinham valor de moeda e patrimônio. Cabia a cada família da comunidade dar a sua contribuição, e coube à minha mãe preencher a cota da família.
A dor da perda, a traição do abandono. A dor dilacerante que se ergue e se transforma em raiva, para então projetar-se contra todas as mulheres, pois, quando eu mais precisava, uma mulher – minha mãe – me abandonou.
E assim, para não sofrer a dor de ser abandonado novamente, eu passei a abandonar as mulheres antes.
Vida após vida, buscando desesperadamente o amor nas mulheres e, ao encontrá-lo, abandonava-as antes de ser abandonado.
Amar tornara-se sinônimo de sofrimento, já que era inevitável perder essa fonte externa de amor.
O medo de amar!
. . .
Desde o início da jornada de geração e nascimento do terapeuta, eu sentia um impulso, um chamado para acessar vidas passadas. Havia um fascínio em poder olhar para vidas pregressas. E essas experiências começaram a acontecer a partir da minha formação em Renascimento e técnicas respiratórias.
Fui tomado pelas experiências. Seguiram-se longas jornadas para integrá-las e, todavia, suspeito haver mais para colher e acolher.
Os gritos do menino ainda ecoam em mim. Uma profunda tristeza persiste, como pano de fundo, ao longo de todos os meus dias. Como ecos de um jogo da dualidade em abandonar e ser abandonado. Um aspecto meu que insiste em lutar para dominar ou escapar do medo de sofrer.
Uma longa jornada, apenas para aprender a amar e a deixar ir. Vida após vida.
Mas como amar e não me apegar aos entes queridos? Como deixá-los ir? Como partir, como deixá-los?
Osho disse que, eventualmente, nos é concedido um vislumbre de nossas vidas passadas. E apenas esse vislumbre já é uma dádiva, uma bênção.
De fato, sou abençoado. Esse vislumbre e muitos outros mais, geraram um impacto avassalador na minha vida, na forma como me relaciono com a existência, na forma como me percebo no mundo.
Neste roteiro interminável de ciclos viciosos de abandono, fica claro que eu me abandonei. Eu desisti de mim mesmo, sucumbindo à dor e ao sofrimento em tantas vidas.
Foram muitos anos e muitas vidas reconciliando-me com as experiências vividas. Reconciliando-me com tantos abandonos.
Reconciliando-me, principalmente, com os meus movimentos de abandonar outras pessoas para sofrer menos. Pessoas queridas e especiais com quem convivi e vivi. Pessoas que passaram por mim e que eu tive de deixar ir, para poder seguir minha jornada.
Uma lenta metamorfose para me reconciliar com a vida, com o feminino. Para aceitar as minhas escolhas.
Poder voltar a encontrar amor em meu próprio coração.
Resgatar o menino.
Dar ao menino a permissão para aceitar e amar novamente o feminino. Dar ao menino a permissão de amar e ser amado.
. . .
O medo de amar impedia o menino de ocupar o lugar dele na minha vida.
E, assim como na jornada do “Cavaleiro da Armadura Enferrujada”*, eu construí uma armadura para proteger meu coração, o que acabou por fechá-lo, aprisionando o menino ali.
Essa armadura apenas começou a afrouxar quando cansei de lutar. Quando a luta exauriu minhas forças. Quando desisti. Quando a espada caiu e ficaram apenas as lágrimas.
O menino pôde, então, chorar novamente.
Expressar toda sua dor e tristeza e começar, a partir daí, o lento movimento de sair da lata da armadura, do claustro onde eu o escondi, para que ele (eu) não sofresse mais.
Cada lágrima derramada escorria pela armadura e enfraquecia o metal. Um processo lento e doloroso, dando vazão ao choro contido para endurecer o coração do soldado, que um dia foi à luta e que, finalmente, desistia de lutar.
O tempo do combate acabou. A dura lata começou a desagregar-se.
Entrar no claustro do coração fechado, do meu coração, foi assustador. Acessar todo o medo do menino, que eu tranquei lá dentro junto com ele. Um mergulho no escuro do autoabandono. Um mergulho na escuridão do medo.
Lentamente, as horas mais escuras foram percorridas, sem direção, sem orientação, sem destino. Um arrastar-se nas profundezas das sombras do calabouço, assolapado pelo medo de ir ao encontro do que eu mais queria: o amor, que já se tornara uma memória distante e esquecida.
Sem mais forças para lutar, restaram-me as lágrimas. Os choros de todas as lágrimas contidas. Como um fluxo contínuo de tristeza. Um rio de águas amargas, oxidando a armadura que fechava o coração.
*El Caballero de la armadura oxidada, Robert Fisher.
. . .
Mas o porão sombrio começava a se abrir, e eu pude sentir uma presença nova ao meu redor. O menino fora liberto.
Eu tranquei o menino, e apenas eu poderia abrir essa porta novamente.
. . .
Quando me dei conta, era o menino que seguia na frente, mostrando o caminho. Iluminando o caminho com a luz do coração que, timidamente, começava a brilhar.
A luz do sol começa a dar sinais, emitindo as primeiras frequências do alvorecer.
. . .
Ao longo da caminhada desta vida, o menino sempre dava sinal de sua presença.
A travessura era uma forma de expressão, de chamar a atenção. “Ei, eu estou aqui!”
Bombas feitas de cilindros de lata recheados com pólvora; incêndio “acidental” de um pinheiro; carrinho de rolimã desembestado ladeira abaixo; sabão na fonte da cidade; trotes…
“Eu estou aqui! Olhe para mim!” – gritava o menino.
Todas essas manifestações sinalizavam a energia do menino. Traduziam a sede de viver a vida. Buscar experiências que trouxessem significado para minha própria vida.
O moleque travesso que ainda se manifesta ocasionalmente, ou, devo dizer, frequentemente, traz a assinatura da energia que foi excluída, ocultada, para que eu pudesse sobreviver sem a presença da criança.
Ocorre que, sem a criança, eu não teria sobrevivido!
Para crescer e se tornar adulto, o adolescente parou de chorar. O homem sério, sisudo, rabugento, precisava de uma válvula de escape. A travessura do moleque sustentava um campo mínimo de energia de alegria para que eu pudesse sobreviver.
A busca pela criança é a própria busca para a revelação e ancoramento de Dhyan Deepak neste plano físico.
E se eu não tivesse me lançado nessa jornada? Se houvesse tentado manter uma posição “importante” em alguma empresa?
É muito claro para mim.
Caso não houvesse buscado a criança, o coração enclausurado teria se rompido, na forma do que é chamado tecnicamente de um infarto do miocárdio.
O planejado não se manifestou? Encerramento do ciclo de vida, para então retornar em um novo corpo.
Não, não houve que encerrar o meu ciclo de vida.
O menino está aqui!
Não perca as novidades