Eram seres angelicais, perfilados em duas linhas, formando um corredor no espaço que eu percorria lentamente. 

Não havia um piso; apenas todos, inclusive eu, flutuávamos. 

As filas desses seres sustentavam o caminho a ser percorrido no espaço. Não lembro de suas faces ou expressões, mas eram seres grandiosos, magníficos. 

As duas linhas eram longas, como que pavimentando uma estrada no espaço que conduzia ao meu destino: a este plano físico. A última memória antes de mergulhar no vazio da separatividade, que me trouxe a este mundo, a esta dualidade.

Eu estava determinado, confiante.

A emoção inundou meu corpo com essa visão tão presente. 

O que foi que eu deixei para trás? O que havia antes dessa lembrança?

Uma sensação de saudade de algo intangível. A mesma tristeza que me acompanha sempre. Como se eu estendesse a mão, buscando tocar além, mas sem alcançar…

De fato, essa sensação de perceber alguém diante de mim e não poder tocar é recorrente. A figura romântica de O Feitiço de Áquila* ainda se manifesta. 

Por outro lado, percebo que essa falta, essa carência de mim mesmo, funciona como uma alavanca para me impulsionar a seguir adiante na minha jornada.

*Estória medieval de um casal apaixonado que, através do ciúme de um clérigo também apaixonado pela mesma mulher, foi separado por um feitiço. A mulher transforma-se em águia durante o dia, e o homem, em lobo durante a noite. Eles apenas podem se ver em sua forma humana na aurora e no crepúsculo, em um momento fugaz.