Eu recebi a graça de ter chefes extraordinários. Pessoas que sempre me apoiaram e me ajudaram no meu desenvolvimento, enquanto profissional e humano. Incluiria, nessa categoria, duas ou três pessoas.

Pessoas que me orientaram ao longo da carreira, em quem eu podia confiar para receber opinião imparcial e experiente em situações difíceis.

Ocorre que também recebi a graça de ter chefes mais complexos no seu comportamento e na sua psique. Esses mestres ensinaram-me a lidar, por exemplo, com alguém que sentia prazer em fazer os subordinados sofrerem. 

Vim a entender que essa pessoa tinha uma relação bastante complexa com o prazer — algo na categoria do sadomasoquismo —, que ele projetava em suas relações, inclusive profissionais. Apresentava-se ao mundo como uma pessoa ponderada e equilibrada. Porém, a impulsividade caótica, acobertada por uma casca exterior de calma, rugia em fugazes momentos de decisões cuidadosamente preparadas para causar impacto emocional no subordinado. Tipo: tirar um benefício e regozijar-se com o sofrimento alheio. Sim, o regozijo pude perceber em um lapso de sorriso, em meio à conversação. 

Talvez você, que está lendo estas palavras, fique espantado ao saber que existem pessoas que agem assim. Pois, na minha experiência em muitas empresas, a frequência desse tipo de atitude foi espantosamente alta.

Algumas vezes, com enorme habilidade na conduta de manipular os sentimentos alheios; em outras situações — que também testemunhei—, carregadas de grosseria.

O manipulador sutil o faz com inteligência e maestria. Conduz a pessoa manipulada a sentir-se o pior dos seres humanos, desde uma mãe ou pai que afirma: “Você não faz nada direito!” até o chefe que olha para o seu relatório e pergunta, candidamente: “Isso é o melhor que você pode fazer?”

Convivi também com mestres/chefes psicopatas — o poder a qualquer preço —, e corruptos: ganho da empresa e ganho nos negócios que intermedeio para a empresa. Acho que eu sempre soube a hora de ir embora, nesses casos.

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Tenho comigo que a maioria das pessoas que participaram de equipes que lidero e liderei gostou de trabalhar comigo. Não, não agradei a todo mundo. Hoje em dia, mais do que nunca, tenho vivenciado grande aprendizado com grupos de trabalho.

Quantas concessões eu fiz aos outros e a mim mesmo, das quais me arrependi.

Quantas concessões neguei-me a fazer, das quais igualmente me arrependi.

As relações de trabalho fizeram-me crescer como negociador e gestor de projetos. Porém, eis-me aqui, gestando Os Corpos da Alma e me sentindo, por vezes, como um adolescente totalmente despreparado…