O riacho fazia uma curva acentuada, envolvendo o local onde montei a barraca. O arvoredo projetava-se sobre o local úmido e frio, nas encostas do Parque Nacional de Itatiaia, naquele mês de agosto, em pleno inverno.
Ali, bem no cotovelo da curva, posicionei o cachimbo naquela jornada de iniciação com essa ferramenta de poder. Como um altar em meio àquela exuberante natureza, com o chão e as pedras forrados de musgo verde-escuro e grandes quantidades de musgo claro pendendo em tufos das árvores.
Os elementais pairavam ao redor, quase visíveis, quase palpáveis, naquele local de rara beleza e magia.
Aquele canto do mundo me acolheu com alegria para minha iniciação com o cachimbo, numa jornada de sete dias de “busca da visão”, em jejum alimentar, mas tomando água, seguindo as orientações de Christine Day.
As temperaturas abaixo de zero durante a noite me obrigavam a usar toda a roupa que eu havia trazido. O frio emanava do solo encharcado e parecia atravessar o colchão de ar como se este não existisse.
Pelas manhãs, podia me revigorar ao sol, quando ele se erguia acima das altas montanhas próximas.
Não sentia fome, e havia tempo para meditar longamente junto ao cachimbo. Os incensos se consumiam enquanto eu transitava em espaços além do mental. Muita paz ao som do burburinho das águas contornando as pedras ao longo do rio.
A sensação de pertencimento àquele ambiente, de estar em casa. A mesma energia que eu encontrara na infância, num passeio a um riacho de águas translúcidas e jabuticabeiras centenárias, estava manifesta.
Fumar o cachimbo, honrando as direções, e voltar a mergulhar no universo da meditação.
Dia após dia, o silêncio aguçava minhas percepções. Apenas estar ali, sem compromisso com horários ou qualquer preparo de comida. Apenas ser.
Porém, e não sem motivo, eis que o fumo improvisado — pois havia esquecido em casa o tabaco de qualidade — atacou-me o fígado, o que me obrigou a suspender as sessões diárias de fumar o cachimbo.
A crise hepática liberou raiva e medo através do corpo. Contudo, eu apenas observava o desconforto físico, até porque era o que me restava fazer naquele espaço.
Então, como a água trazida não fora suficiente para todos os dias, fui coletar mais em um pequeno córrego próximo, conforme indicação recebida logo que cheguei ao local. Mas havia chovido na noite anterior, e a água estava turva.
E aí teve início a disenteria. Uma limpeza de todo o trato digestivo, frente aos microrganismos que não foram bem-vindos pelos meus intestinos. De fato, num processo de jejum, esvaziar os intestinos é recomendável; porém, a limpeza impulsionada pelas cólicas da disenteria é algo que não recomendo a ninguém.
O medo saía em meio a mais desconforto físico, que foi se acentuando, pois a água então disponível era de qualidade discutível, para dizer o mínimo.
Na penúltima noite, já não havia mais tanta disenteria. Então começou o vômito, pela madrugada adentro, ainda que não houvesse o que vomitar, apenas os poucos goles de água ingeridos. Mais medo sendo liberado.
O expurgo físico do medo fragilizava o corpo. A rejeição à água disponível colocou-me em uma situação delicada. Pela manhã, houve que tomar uma decisão, pois mais uma noite de vômito e eu não teria forças para sair de lá, já que o corpo poderia entrar em desidratação profunda. Assim, comecei a desmontar o acampamento e buscar o carro, que ficara numa pousada pouco distante. Tudo muito lentamente, frente a toda a fraqueza.
A bateria do carro estava arriada, e houve que empurrá-lo para pegar no tranco. Ainda encontrei forças, antes de deixar o local, para juntar todos os resíduos largados nas adjacências por visitantes pouco conscientes. Deixar o local melhor do que quando o encontrei.
Já na rodovia, após os muitos quilômetros de estrada de chão, subindo as pirambeiras da encosta nas imediações do Parque de Itatiaia, comprei água de coco, que foi aceita pelo estômago.
Completei a última noite e o período de jejum em casa, mantendo o isolamento, o silêncio e o privilégio do celular desligado.
Profunda gratidão às forças da natureza que me assistiram nesta caminhada.
Ficou naquela curva de riacho o medo de assumir o que eu vim realizar nesta vida.
Não perca as novidades