O rio Colorado, aquele que corta o Grand Canyon — talvez a maior voçoroca (erosão) do planeta —, é o tributário de uma represa artificial que abastece a cidade de Las Vegas. Para quem vem no sentido das águas, pelo flanco do norte do Canyon (North Rim), a entrada para a primeira área de lazer junto à represa está fechada por falta de água. O nível do lago já havia baixado mais de trinta metros, o que pude testemunhar pelas marcas nas encostas e pela rampa de barcos, junto à segunda área de lazer — esta aberta, mas cujas placas indicam não haver segurança para o acesso de barcos, devido às águas muito rasas.

Os sinais do processo de desertificação no Meio-Oeste norte-americano estão em toda parte. 

Seguindo pelo flanco norte do Grand Canyon a vazante do rio Colorado, chegamos ao Desert of Fire. O deserto de fogo tem esse nome pela coloração do arenito nessa área: vermelho e amarelo.

Na área de lazer aberta à visitação, as formações dos arenitos são magníficas em suas estruturas esculpidas pelos ventos — ainda que a permissividade para andar onde for denote um uso depauperador das áreas de preservação ambiental neste país, que as confunde com áreas de lazer.

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Naquela madrugada de julho, saí sozinho do hotel para minha iniciação com meu novo cachimbo. 

Apesar de o sol ainda não ter se erguido no horizonte, fazia mais de 30 °C; já nas horas mais quentes do dia, a temperatura se elevava acima dos 50 °C.

Encontrei um local próximo a sítios arqueológicos para sentar-me no chão, testemunhar o sol nascente e fumar meu cachimbo pela primeira vez — não sem antes caminhar ao redor, procurando uma posição mais elevada em meio aos próprios sítios arqueológicos.

Contentei-me com uma posição mais modesta, pouco abaixo das elevações, mas que hoje percebo como perfeita e correta. Era onde os ancestrais que habitaram aquelas paragens permitiram que eu ficasse.

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O fogo do sol nascente ativando o fornilho do cachimbo. 

O fogo do fósforo queima o palito de madeira e o tabaco, compostos pelo carbono fixado pelas plantas com a energia do sol. 

Ao queimar, o tabaco libera a energia do sol — o elemento fogo. 

No fornilho de pedra do cachimbo — que representa o elemento terra —, o tabaco entrega-se ao fogo para liberar o seu espírito, na forma de fumaça — o elemento ar. 

A mesma fumaça que, antes de ser liberada, absorve a minha umidade nas vias respiratórias — o elemento água —, completando os quatro elementos, que são oferecidos às quatro direções.

O sol saiu por trás dos montes irregulares de arenito, no horizonte do Monument Valley. Os primeiros raios iluminaram meu pequeno ritual e me preencheram de alegria.

Naquela vastidão do deserto, tem início a minha jornada de maestria com o cachimbo.