Por muitos anos, eu acalentei o projeto de fazer esta caminhada.
Por questões de trabalho e consultorias, não conseguia encontrar agenda para me ausentar pelo tempo necessário.
Ao escrever estas linhas, já vai bem mais de ano que me encontro livre de obrigações como agrônomo.
O Caminho de Santiago coroou um processo de libertação.
Dhyan Deepak está livre para ser e se expressar como Dhyan Deepak.
O primeiro ano desse processo de libertação foi conturbado: um ano de encerramentos de ciclos (ano 9).
Deixar ir consultorias, ambientes e relações tóxicas com temperos de ciúmes, vaidades, competição.
Até mesmo as relações inerentes à organização d’Os Corpos da Alma passaram por uma metamorfose em direção à sustentabilidade e ao equilíbrio nesses anos pós-pandemia.
Num ano nove, tudo aquilo que já não é mais sustentável, tudo o que já não tem mais sentido ou propósito, tende a desvanecer-se. E esse ano nove foi bem nove!
Portanto, pegar uma mochila, colocar o essencial lá dentro, embarcar para Biarritz, na França, depois seguir de trem até Saint-Jean-Pied-de-Port, onde começa o assim chamado Caminho Francês a Santiago de Compostela, foi uma glória.
Chego lá nos primeiros dias de abril, um domingo chuvoso. Quase tudo fechado, mas houve que sair na chuva, já testando a capa, para comprar algo para comer e para a largada no dia seguinte, já que não comprei o café da manhã no hotel.
Para a partida, a chuva parou. Fui encontrá-la em apenas um ou dois dias do percurso, mas em intensidades moderadas, pouco além de garoas, o que reforçou a percepção de que a Espanha estava vivenciando uma primavera extremamente seca naquele ano.
Os dias começavam com temperaturas ao redor de 5 °C. No início, eu usava praticamente toda a roupa que tinha: camiseta de manga comprida (com algum teor de lã), mais o fleece (veste fina corta-vento), mais a japona. Abaixo da cintura: calça térmica (fina) sobre a cueca e, cobrindo tudo, a calça de campo (aquela cheia de bolsos, sintética e com zíper abaixo dos joelhos, que eu tirava quando queria ficar de bermuda). Nos pés, duas meias — uma mais acolchoada, com tensores, e outra mais fina, para evitar atrito — e o tênis de caminhada, de cano elevado, com palmilha gel.
Os pés ganhavam dose de vaselina antes de receberem as meias. Para aqueles que se aventurarem em grandes caminhadas: zero atrito nos pés! Atrito = bolha. Conheci peregrinos sofridos, que amargaram festivais de bolhas nos pés.
Eu fui especialmente cuidadoso, usando até esparadrapo (micropore) em áreas que sentia serem mais sensíveis. O resultado? Zero bolhas.
Desde o preparo e a organização da jornada, decidi que seria um passeio. E assim foi, ou quase…
A semana anterior à minha chegada em Saint-Jean foi de muita chuva. Logo, os espanhóis fecharam o caminho pelas montanhas, por segurança.
Portanto, o primeiro dia, destinado a cruzar os Pireneus – um trecho de 36km –, teve lugar na trilha que acompanha a rodovia, ora em trechos isolados, ora no próprio acostamento. Sempre morro acima.
Lá pelas tantas, talvez umas quatro horas de caminhada firme, eis que eu perco o acesso, indicado por pequena placa, do caminho para Roncesvalles, e sigo por uma estrada em zigue-zague na encosta de uma montanha. Achei bem puxado.
Com mais de 10 kg de bagagem nas costas, mais água, um sanduíche e alguma fruta, comecei a refletir sobre o desafio daquela rampa para peregrinos menos preparados. Não que eu estivesse em capacitação atlética, mas estava bastante bem fisicamente, até exaurir minhas forças naquela subida.
Ao imaginar a dificuldade de pessoas mais frágeis naquele percurso, pirambeira acima, é que caiu a ficha. Havia horas que não avistava qualquer outro peregrino no trecho.
A mancada ficou evidenciada quando, após a última curva do zigue ou do zague, vejo adiante o cume da montanha… nevado.
Paro para comer o lanche, tirar o calçado, respirar longamente e fundo e abrir o celular para conferir o caminho.
Imaginei que pudesse haver uma trilha do outro lado da montanha, mas, mesmo que houvesse, isso me levaria para o sul, bem para longe de Roncesvalles.
É preciso sangue-frio nessas horas e ter clareza da situação: já estava no início da tarde, mais de seis horas andando em local onde as temperaturas cairiam bem abaixo de zero pela noite, e eu não estava minimamente equipado para a possibilidade de passar a noite ali. Não se avistava viva alma havia horas…
Para baixo todo santo ajuda. Retornei, reconhecendo o ponto onde me perdi.
É claro que, ao avistar os peregrinos na outra encosta, quis cortar caminho, subindo uma pequena elevação coberta por uma macega, que escondia ramos espinhentos e um terreno pouco firme, que exigiu bem mais esforço que o previsto, além das espetadas dos espinhos.
Novamente, houve que subir. Agora, pelo menos, no Caminho.
A arrogância do peregrino durão da manhã virou uma memória distante naqueles últimos quatro quilômetros, morro acima.
Estimo que todos os que ultrapassei pela manhã passaram por mim até minha chegada ao imenso albergue de Roncesvalles, no final do dia.
Foi mole não… mais de quarenta quilômetros nesse primeiro dia.
O ego ficou bem mais manso.
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Suspeito que o Caminho tenha perdido bastante do glamour de seu passado recente, quando a oferta de alojamentos era bem menor e o número de peregrinos também.
A escassez de vagas nos albergues municipais (mais baratos) gera um certo clima de competição — o que pude testemunhar sem me envolver no drama, até porque, quando findava a caminhada do dia, eu estava tão cansado que qualquer drama tornava-se simplesmente irrelevante.
De fato, o planejamento de minha caminhada foi apenas estabelecer a data de início e de final.
Eu nunca soube, ao longo dos dias, onde iria dormir na próxima noite. Em geral, eu saía cedo. Umas duas vezes, tomei café da manhã onde pousei. Porém, acordar às cinco horas da manhã, poder fazer uso de banheiros vazios e começar a caminhar, muitas vezes, mais de uma hora antes de o sol nascer, foi o que predominou.
No início das tardes, as pernas, sentindo o baque, começavam a me chamar para o descanso, para um local de pouso.
Raras vezes deparei-me com locais lotados — duas ou três vezes.
Abril é um mês normalmente chuvoso e de menor frequência de peregrinos no Caminho. Porém, em tempos de pós-pandemia, houve uma retomada forte na peregrinação, ao que recomendo fazer reservas, principalmente para aqueles que não puderem chegar até o início da tarde ao seu destino.
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Após a turbulência inicial, fui afinando o violino: saía mesmo com temperaturas perto de zero, vestindo apenas a camiseta de mangas longas.
Após uns quinze minutos de caminhada, o corpo já estava aquecido no desempenho de suas funções metabólicas.
Ocorre que, ao usar a japona, eu suava um monte, e ela ficava encharcada. Havia que pendurá-la na mochila para ir secando, enquanto eu sofria rápido resfriamento, até a camiseta, que também ficava encharcada sob a japona, secar.
Peregrino raiz carrega a própria mochila, dorme em albergues tradicionais, frequenta as missas…
É, talvez eu não me encaixe bem nas tradições. Respeito-as, mas faço o que posso em cada momento.
E sim, perdi-me várias vezes. Foi muito pedagógico.
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