Estou fazendo uma limpeza nas árvores que pendem sobre os fios da cerca de divisa da chácara. Dediquei vários dias para o serviço, que se mostrou grande pela quantidade de galhos a serem podados, ora por estarem parasitados com erva-de-passarinho, ora por penderem sobre os fios de energia.
Coloquei a escada encostada num grande pé de fumeiro para, então, subir com a motosserra (desligada) na mão direita. Ia cortar mais um galho dessa planta.
Porém, ao pisar no quarto degrau, a escada cedeu na outra ponta, descendo e me desequilibrando. Procurei pular e cair na área livre do gramado, longe da escada.
Durante a queda, eu desliguei. Simplesmente apaguei.
Desconheço quanto tempo fiquei desmaiado.
Do ponto de vista físico, a queda — que foi um pulo de uma altura inferior a um metro — seria de pequeno impacto. Porém, a sensação, quando despertei do desmaio, foi de ter sido atropelado por um caminhão.
Minha mão esquerda, que estava livre na queda, foi provavelmente a primeira parte do corpo a tocar o chão, o que distendeu vários dedos, gerando grande inchaço na palma da mão e nos dedos, além de fortes dores nessa área e no ombro, que persistiram por muitos meses.
Houve uma abertura dimensional no tempo, fazendo dessa experiência algo muito incomum.
Após despertar, levei longos minutos perdido, buscando entender onde eu estava e o que havia acontecido. A mão segue inchada enquanto escrevo estas palavras. Aliás, as dores pelo corpo persistiram por vários meses.
Nesse acidente que, de alguma maneira, provoquei, que busquei de forma não racional, houve uma morte e um renascimento. Este que nasceu é uma pessoa muito distinta daquela que caiu.
Eu sou o entrante (walk in)* de mim mesmo.
No momento da queda, eu desliguei, desconectei-me do corpo, o que representa a morte do corpo físico. Na sequência, retorno ao corpo. Porém, nesse intervalo de tempo de desconexão — de morte — houve, no retorno, um realinhamento com meu Eu superior. O tempo é relativo e, nos talvez minutos de desconexão do corpo, num tempo estendido, foi feita uma profunda recalibração no corpo físico, enquanto eu me realinhava com dimensões minhas mais elevadas a este plano físico.
Ainda agora, tempos após o ocorrido, estou olhando para o impacto da experiência. Minha operacionalidade neste mundo ficou muito limitada, para dizer o mínimo. Percebi — e percebo — uma lenta recuperação, mas longe da agilidade que vibrava antes do evento. Já somam cerca de dois anos desde esse episódio, mas ainda há remanescentes físicos no corpo, portanto, aspectos da mudança a serem integrados.
Um cansaço infinito e persistente exigia descanso — horas de sono — logo após o ocorrido. Dores em todo o corpo e uma sensação de deslocamento são as melhores palavras que encontro.
A integração desse evento está gerando forte impacto no corpo físico, acusando a mudança. Sinto-me muito diferente, talvez em posição de deixar ir uma persona que já nada mais aporta em minha vida, caminhando para além do drama.
Houve uma profunda mudança na minha percepção de mim mesmo e de minha forma de estar no mundo a partir dessa vivência.
Conforme a mudança acontece, percebo uma potencialização nos atendimentos às pessoas e nos trabalhos coletivos.
Um processo de readequação para operar neste mundo numa frequência mais elevada de mim mesmo.
Nunca me senti tão pleno em mim mesmo.
Esse episódio marcou uma profunda mudança na forma de transmitir todos os processos energéticos que envolvem minha atuação enquanto terapeuta, enquanto canalizador das Salas de Autocura, das Imersões, dos atendimentos, do Temazcal e dos Retiros Os Corpos da Alma, enquanto ser humano encarnado.
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