Sofrimento & Karma – as velhas energias
Lemúria
O nome me veio de forma clara: “Templo da Águia”.
Ficava numa alta montanha, no então continente de Mu. A imagem mostrava uma caverna bastante rústica, como uma janela irregular projetando-se de dentro da montanha — onde eu estava — para contemplar o azul da abóbada celeste.
Eu estava sentindo raiva. Muita raiva.
Imóvel, eu contemplava o fim daquela civilização se aproximar. Havia decidido não abandonar Mu, embora soubesse de seu fim. Eu sabia que o fim daquela terra tão amada por mim — e por tantos — iria nos mergulhar no esquecimento. O esquecimento de quem eu era, de mim mesmo, de minhas habilidades de cura e autocura.
Eu estava incapacitado de enxergar qualquer sentido naquele gigantesco movimento telúrico de naufrágio do nosso amado continente, onde convivemos em paz e harmonia por tantos milênios.
Os avisos do “naufrágio” iminente foram recebidos como uma punição injusta. E o entendimento do próprio processo como punição apenas fazia aflorar ainda mais as energias de julgamento e condenação. Não fui capaz, então, de perceber como a polarização, a dualidade, crescia dentro de mim, alimentando aquela raiva crescente.
A raiva, como resposta emocional diante daquela gigantesca mudança de paradigma. Saíamos de um tecido social íntegro, coeso, harmônico, para uma realidade de competição e luta pela sobrevivência, com barcos deixando aquelas praias que já anunciavam o seu próprio fim, conforme submergiam em um mar cada vez mais turbulento, a cada movimento sísmico.
Eu estava cego para ver, naquele evento, a oportunidade de sustentar e levar a sabedoria daquela civilização para outras paragens no planeta. Os próprios conflitos internos, que se manifestavam em discussões desprovidas de fundo real e coerência, apenas alimentavam irritantes e infinitas disputas de poder. Como pudemos nos deixar mergulhar nas trevas do medo? Como pudemos erguer muralhas de ódio entre nós?
A frustração era comigo mesmo. Uma enorme sensação de impotência para catalisar a colaboração e o apoio. Ver pessoas com as quais convivi por séculos naquela última vida, naquela magnífica civilização, afastarem-se no rancor e na mágoa.
Qualquer manifestação minha era percebida como a intenção de me impor, de dominar o outro. Inútil argumentar contra o medo e o desespero, principalmente se essas emoções já houvessem se alojado no meu próprio corpo mental.
Apenas memórias de me perceber como um náufrago, flutuando entre a raiva e uma profunda tristeza, desapontamento, impotência.
Ficou apenas a oscilação entre a raiva descontrolada e a depressão, num mergulho na desolação de uma paisagem de tristeza sem fim.
A retórica desesperada de ter sido abandonado pelas forças divinas que, até então, nos guiavam e fluíam no tecido social — agora em extinção — apenas sustentava aquela cena de horror e meu consequente aprisionamento aos grilhões do medo.
Olhar para o medo do fim iminente, a frustração com minha própria incapacidade de trazer esperança para aqueles ao meu redor e para mim mesmo. A esperança que impulsionou a imensa maioria dos lemurianos de então a navegar para o desconhecido, levando suas sementes dessa tão escassa esperança mundo afora.
Para onde navegaram?
Onde quer que se avistem hoje estruturas megalíticas e/ou pirâmides, lá eles chegaram e puderam semear e ver brotar a esperança novamente.
Eu soçobrei nos destroços da minha frustração. O medo e a raiva, com os quais eu não sabia lidar, apenas me deixaram afundar na desesperança, apenas aguardando o fim iminente, anunciado a cada tremor da montanha.
. . .
Houve que aguardar vários anos para finalmente conseguir escrever estas linhas. Curiosamente, aguardar um período de turbulência emocional que teve, na sua intensidade, o poder de espelhar a mesma oscilação emocional então vivida — naqueles tempos tão distantes, mas em emoções tão presentes ainda hoje, nesta vida. Suspeito que apenas agora eu possa ser capaz de sustentar uma postura que aponte para um menor grau de identificação com essas densas emoções. Testemunhar o desespero sem me identificar com ele, sem me transformar no próprio desespero. Olhar a raiva, o medo e a tristeza como minhas emoções — e não mais condenar Deus pelo que senti então e pelo que sinto hoje.
Deixar ir toda uma era de esquecimento de mim mesmo.
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