Minha bisavó, então viúva, embarcou com todos os filhos em um navio rumo ao novo mundo, rumo à América. Há relatos de que o porto de destino almejado era Nova Iorque. O navio, porém, seguiu para a América do Sul, tendo Santos como destino. Parece que esse engodo foi orquestrado pelos agentes de viagem da época para preencher vagas nos navios que seguiam para o hemisfério sul do planeta.

Era final do século XIX.

Fico imaginando o que sentiram essas pessoas ao deixarem sua cidade, Módena — na Itália —, para trás. Olhar pela última vez a terra natal. 

Vejo o medo, vejo a frustração desses ancestrais, embarcando para um novo destino de vida, talvez ainda com a sensação de terem vindo para o hemisfério sul do planeta numa pilantragem dos agentes de viagem.

Engano ou não, só posso ser grato a tudo o que aconteceu. Meu avô pode vir para estas terras e gerar, entre seus muitos filhos, minha mãe, que, por sua vez, concebeu o corpo que sigo usando. 

Havia coragem, muita coragem. 

A coragem de deixar tudo para trás. Soltar as amarras para construírem um novo destino em suas vidas. Um destino rico em experiências desafiadoras. Um destino de grande coragem.

Meu avô era um dos mais jovens entre esses imigrantes. Rômulo tinha 5 anos de idade quando embarcou no navio.

É impressionante olhar, a partir da minha confortável realidade atual, para os abismos culturais e de valores vivenciados por essas pessoas extraordinárias — os meus ancestrais.

Conta-se que minha bisavó não era muito afeita ao uso da casinha para suas necessidades fisiológicas. Preferia usar o penico que, sem cerimônia, esvaziava pela janela. Hábito supostamente mantido até seus últimos dias.

Imigrar para outro lugar no mundo, empreender uma viagem de risco elevado, enfrentar uma nova língua, uma nova cultura e sem qualquer perspectiva de retorno é, por si só, um ato heroico.

Meus ancestrais tiveram a coragem de deixar seus lugares de origem e mergulhar nas incertezas e esperanças de um novo mundo.

Pessoas admiráveis.

Sei que as memórias que trago aqui são pouco mais que palavras perdidas, perto da riqueza da vida de cada um desses seres humanos.

Mesmo assim, deixo estas poucas palavras registradas para honrar a jornada daqueles que me precederam.

 

O Nono

Lembro do Nono, meu avô materno, sentado em uma cadeira, na calçada, onde ele pacientemente preparava seus cigarros de fumo de corda picado e palha de milho, cuja fumaça era insuportável para minhas narinas. Assim ele dedicou seus últimos dias de vida, alguns anos antes de vir a tornar-se centenário.

Olhando para ele, ali sentado, percebo hoje o espaço de introspecção e meditação em que ele vivia. Algo que minha criança não conseguia entender: a velhice, o olhar perdido no horizonte de um homem que deixou um legado de vastas experiências para seus descendentes, como um esteio de suporte para que eu possa seguir em frente.

Minha irmã mais velha conviveu com um Nono mais ativo, que servia aos netos copos de água adicionada a uma pequena dose de vinho, estimulando as crianças ao hábito de consumir a bebida milenar. 

Na época do nascimento de minha mãe, antes da Segunda Guerra Mundial, a família de agricultores era muito bem-sucedida em uma propriedade no interior de São Paulo.

Contavam com veículo — um Ford Bigode —, linha telefônica e uma professora que se deslocava até o sítio e morava com a família no período, para alfabetizar os jovens da comunidade, inclusive o próprio Nono.

Produziam milho, algodão e o que mais fosse necessário, incluindo os porcos como fonte de proteína e gordura, criados no andar térreo da casa, conforme a tradição trazida da Europa.

A prosperidade era ancorada na grande força de trabalho familiar, incluindo os onze filhos e filhas, das talvez quinze ou dezesseis gestações de minha avó, garantindo o sustento de todos.

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Herr Ose

A foto, no álbum da família, mostra uma turma de escola — apenas meninos — e, entre eles, meu pai: um jovem adolescente com seus cabelos desgrenhados entre os colegas, todos em trajes de banho. Igualmente trajado estava o guia da excursão e professor de meu pai, Herr Ose (pronuncia-se “ôze”). (Herr designa o tratamento senhorial em alemão)

Fui conhecer Herr Ose quando ingressei na quarta ou quinta série, não tenho certeza. Sim, ele também foi meu professor de alemão e estudos da Alemanha (Deutschlandkunde). Nessas matérias, eu fazia parte do grupo F, que dizia respeito aos alunos que não tiveram o alemão como língua materna (Fremdesprache = língua estrangeira). Popularmente, entre os colegas de escola, éramos da turma fraca.

Professor rigoroso, suas broncas verbais seriam, hoje, motivo de denúncia por agressão moral na secretaria de ensino. Na época, era absolutamente normal ele me chamar, em voz alta, pelo sobrenome, para me arrancar dos devaneios.

Meu pai relatou episódios semelhantes com esse amado professor, quando ele — meu pai — era trazido para o aqui e agora da aula com um tabefe na nuca. O mau comportamento era então castigado com reguadas na palma da mão e, ocasionalmente, ajoelhar-se em grãos de milho, quando a insubordinação fosse grande. 

Tudo dentro da mais perfeita pedagogia das diferentes épocas. Herr Ose era um homem dedicado e respeitado na comunidade de origem germânica. 

Estava já no final da carreira quando lecionou para minha turma. Contudo, cumpria com sua missão de alma. Jorrava grandes quantidades de informação de várias áreas, enchendo o quadro negro e, com sua sabedoria e didática, solicitava que decorássemos tudo para a próxima aula. Era mole, não…

Solteiro, viveu seus últimos anos em uma pequena casa em Peruíbe, no litoral paulista. Morreu de forma trágica, vítima de assaltantes.

Lembro que, em algum de nossos passeios de família na praia, passamos para visitar esse homem que dedicou sua vida ao ensino.

Ainda que em visitas ocasionais, reconheço o quanto meu pai honrou seu professor — o nosso professor Ose.

Sim, foram muitos os meus professores nesta vida. A cada dia, encontro novos professores, das mais diferentes origens, experiências e tempos de vida. Neste aprendizado existencial, não canso de encontrar outras almas que me tragam grandes lições. Deixo registrada, entre muitos guias e tutores, minha homenagem a este mestre de várias gerações.

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Oma

Do mesmo continente europeu de onde vieram meus ancestrais maternos, mais ao norte, nasceu Herta, minha avó paterna, na cidade de Hamburgo, na Alemanha. Assunto enevoado em mistérios, suspeito que ela tenha sido adotada pela família Schwartz, que deu nome e criação a essa filha que nascera de mãe solteira. A mãe de fato, minha bisavó, tornou-se “tia”.

Oma, como a chamávamos carinhosamente, conheceu meu avô paterno Ado, quando este veio trabalhar na cozinha do restaurante da família Schwartz.

Com a depressão econômica na Alemanha, após a Primeira Guerra Mundial, o restaurante não se sustentou. Oma chegou a vender suas joias para ajudar a manter o negócio, sem sucesso.

Casados, ela e Ado embarcaram para o Brasil. Contou-se que meu pai nasceu a caminho ou pouco tempo depois de desembarcarem, o que recentemente não se mostrou acurado. Meus avós chegaram ao Brasil em 1924, anos antes do nascimento de meu pai.

Ao chegarem, sem qualquer domínio da língua local, foram encaminhados para trabalhar em uma fazenda produtora de café, em regime — hoje denominado — de trabalho análogo ao escravo. Fugiram de lá, porque as despesas cresciam mais do que os ganhos. 

Encontraram trabalho nas obras de construção da barragem da represa Billings, nos arredores de São Paulo, cujo acesso era por barco. 

Num acidente, o barco virou. Minha avó se salvou, pois era boa nadadora, segurando num dos braços meu pai, então um bebê de poucos meses.

Ado sofria de erisipela, uma bacteriose que se instalou nos ossos das pernas, aflorando em terríveis crises de febre e dor.

Menos de uma década após sua vinda para o Brasil, ele decidiu retornar à Alemanha para tratar a doença, que já gerava forte limitação em sua mobilidade. Os antibióticos somente seriam descobertos durante a Segunda Guerra Mundial, anos depois. Para essa viagem, ele teve ajuda financeira de seu então sócio no empreendimento de comércio de carnes e embutidos, que veio a se chamar Frigorífico Eder.

Deixou a esposa e o filho, meu pai, sob a supervisão de Karl, um amigo da família.

Ado não voltou mais para o Brasil. Passou pela Segunda Guerra Mundial em Erfurt, sua cidade natal, para onde retornou. A região integrou a Alemanha Oriental após o fim da guerra, e lá ele permaneceu, separado do Ocidente pela Cortina de Ferro até sua morte, em 1954. 

Da relação entre Karl e Herta, nasceu o tio Carlos, ou Onkel Carlinhos, como o chamávamos. 

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Sou testemunha da enorme força deste sistema familiar.

O heroísmo é inerente a cada personagem, em cada jornada desses ancestrais.

Peço a benção a todos esses heróis, que trouxeram a força de seus sistemas familiares e tiveram a coragem de seguir para um novo mundo, entregando seus filhos e filhas a estas terras tropicais.

A benção, meus ancestrais. 

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A imensa maioria das tradições culturais na vastidão deste planeta aponta para honrar os ancestrais. Particularmente, as culturas indígenas e orientais. A Europa mostra essa mesma força ancestral em estilos e tradições diferentes, em rituais pagãos e religiosos. Muito presente entre os povos de origem latina, mas também nas demais regiões deste continente e povos nórdicos, onde o Estado de bem-estar busca oferecer suporte adicional a seus anciãos.

Para que eu e você estejamos aqui, recebemos um corpo físico de um pai e uma mãe biológicos. Fomos cuidados e criados por outras pessoas.

Perceba: quanto vale a sua vida? Quanto vale a minha vida?

Não há valoração cabível. Uma vida não tem preço, é inestimável.

Assim, jamais poderemos pagar pela vida recebida de nossos pais biológicos, ainda que não tenham sido eles os que cuidaram de nós.

Qualquer que seja sua situação de origem, você escolheu estar aqui. Você escolheu seus pais biológicos. Através de um mecanismo de atração por ressonância, você “chegou junto” no exato momento da concepção daquele que viria a ser o seu corpo físico, que você está usando hoje. Saiba que o livre arbítrio é inerente à nossa presença aqui.

Os seus pais biológicos entregaram a você a genética deles para a configuração do corpo físico que você está usando, assim como toda a força do sistema familiar. Não é possível sobrevivermos neste plano físico sem a força de nossos sistemas familiares, mesmo que o seu sistema seja desestruturado e tenha sido fonte de inúmeros traumas.

Ao julgar e condenar quem tenha me ferido de alguma forma, estou apenas colocando meu poder pessoal nas mãos dessa pessoa!

Eu e você recebemos o que os nossos ancestrais puderam nos dar. Nem mais, nem menos.

O que cada um de nós faz com isso, com tudo o que recebemos, diz respeito às nossas escolhas!

Sim, é você no comando da sua vida. 

A cada dia, a cada momento, sua mente do ego está comparando cada evento, cada situação, com os parâmetros aprendidos e vividos, armazenados no seu corpo mental.

Então, algo me acontece. Imediatamente, o “eu” aqui dentro — minha mente do ego — compara o que aconteceu com as informações arquivadas: o que eu queria que acontecesse, o que eu vi acontecer com outros, minhas experiências, expectativas etc. 

O “eu” da mente do ego vai julgar: aprovo ou desaprovo. 

Ao desaprovar algo que me aconteceu, eu passo à condenação do fato: não aceito o ocorrido; rejeito o ocorrido; nego a possibilidade de integrar o ocorrido como algo meu. Logo, um pedaço meu fica de fora. 

Eu não quero isso, não quero ver isso, não quero sentir isso. Jogo tudo no porão do esquecimento para não sofrer, para não sentir dor.

Só que nada fica esquecido, apenas enterrado no porão, esperando a oportunidade para se manifestar. Manifestar-se como?

– Repetindo o ocorrido. Sim, a energia acumulada vai se manifestar, repetindo o mesmo drama.

– Crises emocionais, síndromes de pânico, depressão etc.

– Doenças no corpo físico.

– Envelhecimento.

Insisto, sou eu quem está no comando da minha vida. Sempre foi, sempre será.

Saber disso, aceitar isso como verdade, é o primeiro passo para a cura.

A cura deriva da mudança primordial da minha relação com tudo que acontece comigo e dos eventos externos.

A cada momento, posso escolher mudar minha relação com a realidade que eu crio — ou não.

Perceba o desafio:

– Aceitar que sou eu quem cria minha própria realidade.

– Apenas eu posso decidir acolher tudo o que me acontece.

– Apenas eu posso soltar qualquer energia densa.

Todo o processo não é “feito” através da mente. Não é um fazer. É intencionar soltar e dar permissão para isso acontecer. Dar permissão para receber ajuda.

Isso mesmo, precisamos de ajuda. Não conseguimos sem ajuda.

De forma simples e objetiva: 

Estou julgando? Estou achando o ocorrido ruim? 

Então estou na energia velha. O velho padrão de rejeitar e acumular densidade, de encontrar um culpado fora para o que estou sentindo. Logo, meu poder pessoal vai para esse responsável externo. Eu abro mão do poder.

Na nova energia:

Olho o que é. 

Respiro e deixo ir qualquer emoção ou sensação. Sinto o que há para ser sentido. Choro, rio, enraiveço, fico melancólico e respiro. Sempre volto para o corpo, para o sentir, para a respiração.

Há muito mais a ser dito sobre esse assunto, por isso ele é recorrente neste texto. Para auxiliar cada um de nós no processo de revolucionar nossa relação com a realidade que criamos a cada momento.

Apenas deixe ir.

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Meu pai tinha dezesseis anos de idade quando recebeu uma carta vinda da Alemanha, de um homem que se dizia seu pai. Ele olhou para os pais e perguntou: “Isso é verdade?”

Ali, ele descobriu ser filho de Ado e que seu irmão mais novo, o tio Carlos, era seu meio-irmão — filho de seu padrasto, Karl.

Na época, o concubinato — a união de minha avó, ainda casada, com outro homem — não era aceitável social nem moralmente.

Assim, meu pai foi registrado com o sobrenome do primeiro marido, e meu tio, para não chamar a atenção, foi registrado com o mesmo sobrenome. Levou vários anos para meu tio corrigir o seu sobrenome, adotando o do seu pai verdadeiro.

Meu pai entendeu, então, por que, em quaisquer circunstâncias, era ele quem apanhava, mas raramente o irmão.

Ao reconhecer a frustração do padrasto, que via o próprio filho carregar o sobrenome de outro homem, meu pai demonstrou enorme resiliência às vicissitudes da vida. Embora sempre demonstrasse alguma restrição ao padrasto, soube seguir em frente. Ele soube deixar ir.