Tudo o que passa pelo fogo é transformado pelo fogo. Não há retorno. 

O fogo forja uma nova realidade.

Em minha jornada de formação com Christine Day, houve um rito de passagem no qual fiz parte de um pequeno grupo que construiu a fogueira. Havia muita lenha, de maneira que a estruturamos com grossos troncos em cada um dos quatro cantos, o que configurou uma câmara de combustão em forma piramidal.

As chamas arderam forte naquela noite. 

Eu tocava meu tambor pessoal com muita energia, ativando seu som, que, eu sabia, seria pela última vez.

Era o primeiro tambor que construí nesta vida, inclusive o anel de madeira, ajustado com a dificuldade do aprendizado.

Claramente, um novo ciclo se apresentava em minha vida. Já havia aperfeiçoado novas técnicas de feitura de tambores, então de vários tamanhos, o que refletia novas habilidades para expressar o som do coração através de minha vida.

A baqueta tirava sons em ritmo intenso, a cada impacto sobre o couro de cabra. Um conflito interior para deixar ir, deixar morrer o que já não servia mais. O apego ao pequeno tambor fazia aumentar a intensidade das batidas a um ritmo frenético. Uma catarse no medo da perda, no medo da morte.

Até que pude reunir a coragem na última batida do tambor. A última batida do coração.

A entrega à consumação do fogo. O tambor, cuidadosamente depositado no topo dos troncos ardentes; a baqueta, ao lado do tambor.

Não há retorno. O que foi entregue ao fogo é consumido por ele e se eleva com as salamandras.

Olhando para estas recordações, ainda percebo a memória de uma profunda dor no meu coração. Algo que parece sempre ter estado aí. Um pano de fundo de muitas jornadas. Uma sensação de descrença e desesperança. 

A tristeza da desolação de muitas vidas. De abandonar e ser abandonado.

Quantas vezes deixei tudo para trás, para dar nascimento a uma nova forma de estar no mundo. 

Quantas vezes eu entreguei meu coração ao fogo.