A Quantum era um desejo de consumo antigo. O prazer de ter um carro grande somou-se à necessidade, já que levar a esposa e os três filhos numa viagem de carro aos Andes exigia espaço interno para a bagagem, a qual simplesmente lotou o amplo porta-malas — até porque era julho, e havia frio abaixo de zero pela frente.
Os Andes sempre me chamaram, com muita eloquência. Assim, seguimos nessa primeira viagem às montanhas, que fui compreender como sagradas ao longo das muitas aventuras nessa imensa cordilheira.
Em Corumbá, as crianças — então entre 2 e 7 anos de idade — divertiam-se na piscina do hotel, enquanto aguardávamos os procedimentos de traslado do carro até Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia. O carro viajou de trem, pois os quatrocentos quilômetros de estrada até lá eram impossíveis de serem percorridos com um carro que não fosse 4×4. Houve que contratar um guardador para viajar com o carro no trem e garantir a integridade de todos os pertences e do próprio veículo.
Seguimos de avião até Santa Cruz e Sucre, a cidade branca e capital desse impressionante país. Ali, sofremos o primeiro impacto da altitude, a cerca de 3.000 metros acima do nível do mar.
Contratei um guia para nos levar até Potosí, uma acanhada cidade com seus tetos de zinco, aos pés da imensa montanha de mesmo nome, minerada para extração de prata.
A prata é explorada por mineiros independentes, em um labirinto de minas conhecidas pela enorme insegurança. Anualmente, as entradas são aspergidas com o sangue de lhamas sacrificadas, no propósito de aplacar a sede da montanha pelas vidas dos mineiros.
A rua da cidade que sobe para a encosta da montanha está bem servida de lojas que vendem bananas de dinamite aos garimpeiros, expostas em pilhas na beira da calçada.
A extração de prata, nos dias de hoje, representa apenas as sobras. Os veios principais foram explorados nos primeiros trezentos anos, sob tutela dos espanhóis, à custa do suor e do sangue da população local.
Entretanto, a precariedade da exploração permanece a mesma desde as épocas coloniais.
. . .
De volta a Santa Cruz, recuperamos o carro e seguimos em direção a Cochabamba. Ocorre que, logo no início do trajeto, aos pés dos Andes, a rodovia estava fechada. Eram quase cinco horas da tarde quando chegamos ao bloqueio, que eu não sabia existir.
— ¿Qué pasa?
— El puente está colgada. ¡No hay paso!
Uma enorme ponte em curva entortou. Assim, para evitar maiores danos à estrutura e o risco de desmoronamento, o acesso foi fechado: passagem interditada. Simplesmente, uma pequena montanha de terra foi erguida, fechando completamente a estrada.
Eram os primeiros dias da viagem, já há muitos quilômetros de Santa Cruz; mulher e filhos no carro, e sem condições de avançar.
A população local, que seguia para Cochabamba e La Paz, aguardava pacientemente — ouso dizer, bovinamente — pela chegada de um ônibus que vinha do outro lado da ponte e fazia o percurso Andes acima.
Bem, eu não podia avançar sem o carro. A enorme burocracia para entrar na Bolívia com o veículo, somada às “gorjetas” inevitáveis (em espanhol, “propinas”) e ao custo e operação do traslado do carro em trem até Santa Cruz tornavam impossível voltar. Era final da tarde e não havia onde se hospedar nos arredores, o que criava uma sensação de insegurança exacerbada.
Saio do carro e vou trocar um “lero” com o operador do trator (uma retroescavadeira), que estava mais adiante, além da barreira. Ele estava visivelmente finalizando o trabalho do dia. Porém, em rápida conversa, acertamos “una propina” para cada um dos dois operadores, e eis que retorno triunfante até o carro, pendurado ao lado do trator.
Com a pá do trator, ele rebaixa a barreira; o carro segue, raspando ainda o fundo na elevação reduzida, e imediatamente o operador restaura a elevação de terra. Já do outro lado da ponte, o outro operador procede da mesma forma. E estamos livres para subir os Andes.
O episódio fez-me ver que a posição privilegiada dos tratoristas devia ser bem explorada e gerava boa receita de gorjetas daqueles que se propunham a passar, pagando o “pedágio”. Dormimos em um aconchegante hotel em Cochabamba, onde chegamos horas depois, noite adentro.
O altiplano Andino é uma imensa planície desértica a quatro mil metros de altitude. O monte nevado Chacaltaya, com seus mais de cinco mil metros de altitude, eleva-se no horizonte, ainda a muitos quilômetros de La Paz, coroando essa impressionante paisagem.
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Copacabana é uma cidade às margens do lago Titicaca, quase na divisa com o Peru. Ainda logramos uma visita às lindas ilhas do Sol e da Lua. Embora eu estivesse apenas seguindo um impulso como turista, a energia das ilhas não passou despercebida, tampouco a majestade do lago Titicaca.
Saímos cedo e, em nova burocracia fronteiriça, com as devidas “propinas”, adentramos o Peru, na cidade de Yunguyo.
Ali fomos informados que…
— ¡No hay paso!
Houve, dias antes, um expressivo aumento na tarifa da energia elétrica, o que afetou fortemente a população ribeirinha, que vivia da agricultura irrigada com a água bombeada do lago Titicaca.
A greve acabara de ser decretada. Assim, toda a extensão que ligava Yunguyo a Puno, cerca de cem quilômetros, fora coberta com pedras, postes e o que houvesse para bloquear o fluxo de veículos.
A burocracia na fronteira nos impedia de voltar. Assim, rapidamente nos instalamos no hotel local, em frente à plaza de armas (a praça central). As facilidades do hotel eram precárias, particularmente as sanitárias, com uma fossa meio que transbordando seus resíduos humanos no pátio interno. Guardei o carro num terreno fechado próximo ao hotel.
Passamos todo o dia na laje superior do prédio onde nos hospedamos, testemunhando as frentes de campesinos (camponeses) chegarem e, aos milhares, lotarem a plaza. Os discursos eram pronunciados em espanhol e, em seguida, em quéchua e aimará, no slogan: campesinos unidos jamás serán vencidos.
Comemos batatinhas fritas, biscoitos recheados, frutas e o que mais houvesse na cornucópia de viagem. O único jeito de manter crianças apaziguadas em viagem é com comida (na época, não havia os viciantes smartphones).
Hoje, consciente dos vários alimentos ultraprocessados, fritos e plenos em gorduras hidrogenadas… Mas, na época, tudo era festa na nossa então limitada percepção da realidade alimentar.
Já era final da tarde quando me informaram para ficar atento aos ônibus que saíam para Puno. Se o ônibus saísse, era sinal de que haveria passagem na rodovia.
Vou até o ponto dos ônibus e me informam: vamos sair!
Fecho a conta do hotel. Busco o carro, colocamos toda a bagagem de volta e vamos ao ponto de ônibus.
O ônibus sai, e nós vamos atrás dele. Na saída da cidade, um poste bloqueia a rua. Descem vários passageiros do ônibus para remover a obstrução, e eu junto.
Andamos curta distância e outra obstrução. Descemos e removemos as pedras. E assim por vários quilômetros. Até que encontramos uma barreira com várias pessoas. O ônibus fora liberado, e nós ficamos para trás. Saio do carro e, num espanhol bem razoável, pergunto o que acontece aqui. Após momentos temerários, com alguém falando de um carro de luxo…, entendi que teria de pagar um pedágio a eles. Os cinco soles (algo como um dólar, na época) foram recebidos com enorme satisfação. Ao que percebi ter dado um valor alto para as expectativas deles. Mas, sem vacilo, entro no carro e sigo até alcançar o ônibus novamente.
Ficou claro que haveria inúmeros “postos de pedágio”. Dispúnhamos de pouco dinheiro trocado, o que consegui resolver trocando uma nota maior com o cobrador do ônibus, numa das infinitas paradas. Assim, a cada “praça de pedágio” eu já abria a janela e ofertava a moeda de um sol. Cinquenta centavos não eram aceitos — muito pouco.
Eram altas horas da madrugada quando o ônibus, nosso escudo, saiu da estrada, indo parar em local mais afastado. Nós também, sempre na cola do ônibus. O motivo era que, à frente, havia um pessoal mais empenhado no cumprimento do bloqueio, não nos autorizando a passar.
Naquela jornada, minha companheira fez uma promessa de se tornar vegetariana, caso saíssemos ilesos da travessia. Havíamos lido muitas histórias do Sendero Luminoso, então em plena atividade na região.
Hoje, estou ciente dos muitos anjos e guias que nos guardavam. Tínhamos também toda uma ajuda na logística dos agentes da empresa para a qual eu trabalhava. Meu amigo Carlos, então adido da região América Latina, acionou todo o suporte que recebemos dos representantes locais. Havia também o otimismo que sempre me impulsionava, e assim continua a ser.
Aquela parada na madrugada descortinou um céu estrelado como eu jamais havia visto, até então. Um espetáculo de estrelas preenchendo a abóbada celeste, favorecido pela temperatura abaixo de zero e pelo ar muito seco. As crianças dormiam na cama de bordo: o banco de trás abaixado, de forma que os três pudessem ficar deitados e desfrutar de um sono profundo.
Quando fomos autorizados a seguir, parece que o motorista tinha ido ao encontro dos grevistas para as negociações de avanço, e passamos por um trecho particularmente sinistro. Em várias fogueiras acesas, os campesinos se posicionavam à frente delas. Assim, não podíamos ver seus rostos, pois a luz do fogo estava às costas deles, apenas suas projeções em poses agressivas, com as pernas abertas e os punhos fechados na cintura.
Tenebroso.
Chegamos a Puno perto do alvorecer. Foram mais de dez horas, noite adentro, naquela travessia.
Demos entrada num hotel. Dormi umas duas horas, pois havia que ir até o posto aduaneiro para finalizar a regularização do carro no Peru. O funcionário não estava lá, quando cheguei. Era sábado, mas ele foi chamado e compareceu após mais de uma hora de espera. Documentos OK, voltei para o hotel.
A notícia: rumores de que a greve se tornaria nacional a partir do domingo!
O plano original era irmos até Cusco e Machu Picchu. Mas, diante do risco iminente de outra greve, mudamos a rota para Arequipa. Tomei café da manhã e embarcamos todos no carro para percorrer os cerca de quatrocentos quilômetros até nosso destino — a maior parte do trecho em estrada de terra poeirenta, com muita pedra e terra solta, o que custou o rompimento de alguma junta do escapamento, deixando o carro bem barulhento.
A turbulência grevista ficou para trás. A partir de Arequipa, apenas asfalto.
¡Hay paso!
O deserto de Atacama estende-se até o litoral, cujas águas geladas, trazidas dos mares da Antártida pela corrente de Humboldt, impedem a evaporação e consequente chuva no Peru e no norte do Chile, a oeste da Cordilheira. Assim, cidades como Arica e Iquique, no norte do Chile, despontam entre dunas de areia e o Oceano Pacífico. As paisagens são idílicas.
O Paso Los Libertadores, rodovia que corta os Andes pouco ao norte de Santiago, estava tranquilo, sem neve, permitindo a chegada a Mendoza, na Argentina, e o retorno ao Brasil e a São Paulo, cumprindo os cerca de oito mil quilômetros.
Hoje, olhando para este périplo, fico me indagando sobre a insanidade de cumprir esse percurso em 25 dias.
É… os Andes sempre me chamaram.
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