A natureza é uma catedral!
A imponência das inúmeras paisagens percorridas. Cada ângulo das montanhas, cada flanco dos vales, cada área de cultivo de videiras e oliveiras, cada campo de colza florida, cada pasto, cada floresta, cada trilha, cada arvoredo. É infindável o número de catedrais que percorri.
Fiquei deslumbrado com cada paisagem, cada animal que se apresentou pelos caminhos, cada pessoa que tive o privilégio de encontrar, trocar palavras e sentir sua alma ao cruzar olhares.
Cada vilarejo percorrido, na alegria das poucas, ou mesmo raras, crianças; no silêncio das construções — ora ainda em uso, ora fechadas, ora em ruínas — em processo de reocupação pela natureza.
Cada vilarejo, cada casa, uma catedral.
Cada torre remanescente de igrejas, cujas naves já não mais existem nesta dimensão material, mas que, zelosamente, são ocupadas pelos ninhos de cegonhas. Aves magníficas, que trazem em seus corações as sementes de fogo da Fênix.
Ao consumir-se no próprio fogo existencial, essas aves mitológicas semeiam a esperança do renascimento, da própria ressurreição.
Na minha percepção, todos nós somos testemunhas do fim de uma era antropológica. O fim da barbárie.
O fim das crenças em escassez e miséria.
O fim de um mundo guiado pelo medo da falta, de não ter o suficiente.
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Já não me causa surpresa encontrar outro local onde eu tenha vivido em alguma vida anterior.
Na caminhada a Compostela, bastava “chutar uma touceira de mato” para aparecer a lembrança de já ter vivido ali, ou caminhado por aquela paragem.
Em particular, no castelo medieval de Ponferrada, emergiram densidades: desapontamento, tristeza, traição. Olhando agora, que escrevo estas linhas, vejo o quanto venho trabalhando, soltando essas energias nestes últimos anos, antes e depois do Caminho.
Ao trazer estas palavras aqui, mais ondas. Há que fazer uma pausa, respirar. Ir lá fora, tomar sol. Deixar ir.
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O Caminho Francês atravessa, além dos Pireneus, mais duas regiões montanhosas.
As subidas são puxadas. Porém, as descidas podem ser sofridas e gerar bastante desconforto. Uma tendinite no pé direito quase me fez parar por alguns dias, ainda mais quando se manifestou no pé esquerdo também.
Encontrei muitos peregrinos com formas variadas de deslocamento. Há aqueles que despacham a bagagem para o próximo albergue; como eu não sabia onde ia dormir na próxima noite — aliás, não sabia o que havia pela frente —, houve que carregar a mochila o tempo todo.
Porém, para quem quer evitar o risco de não encontrar lugar para ficar e fazer reservas previamente, não precisar carregar a mochila é uma opção.
Há aqueles que optam por fazer o Caminho de bicicleta — de fato, muitos. Já há toda uma infraestrutura para eles, e tem a vantagem de poder fazer todo o trajeto em tempo bem mais curto.
Encontrei dois casais franceses que percorriam o Caminho de ônibus. Assim, tinham tempo para desfrutar de cada parada e visitar os locais. Quando eles me perguntaram o que eu achava da forma de eles percorrerem o Caminho, respondi:
Todos estamos fazendo o Caminho. Alguns percorrem trechos curtos, outros mais longos. Alguns em cadeiras de rodas. Muitos fizeram o caminho comigo, apenas acompanhando os vídeos que eu postava nas redes sociais.
Na idade média, muitos peregrinos morriam ao longo do Caminho. O peso da via-crúcis vai sendo aliviado conforme escolhemos nos libertar da cruz.
O conceito de que é preciso sofrer é uma energia velha. Uma forte crença de que é preciso lutar para conquistar o crescimento espiritual.
Vivemos o tempo de sublimar o sofrimento e deixá-lo ir.
Vivemos o tempo de escolher conscientemente que eu posso dar os passos em minha vida com leveza e alegria.
De que não existe uma forma correta de dar esses passos. O que existe é como eu escolho dar cada passo. Eu me dou o direito divino de escolher a alegria, a leveza.
Conforme faço essas escolhas, as densidades, o sofrimento, as dores vão se manifestando para poderem ser liberadas e deixadas para trás.
A experiência de sofrimento existiu, não há que negá-la. Carregar minha cruz até aqui. E aqui e agora é um local e tempo perfeitos para soltar o fardo, soltar a cruz.
O livre-arbítrio, o poder de escolher agora, aponta para tomar a minha vida em minhas mãos. É um ato de poder, um ato de glória.
Muitos fardos e cruzes eu deixei pelo Caminho.
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Avistar Santiago de Compostela foi um momento de imensa alegria.
Chegando até a lateral da Catedral, sentei-me em um degrau de uma escadaria para integrar a emoção, olhar para mim mesmo e dizer: está feito!
Busquei um hotel e achei um, há poucas quadras de onde eu estava. Ali permaneci por duas noites, antes da viagem de volta. Sim, fui à missa da impressionante Catedral, que conta com um dos quadrantes centrais todo coberto de ouro… das colônias sul-americanas, suponho.
Mas a energia que encontrei foi de celebração.
E a cidade é muito próspera, pelo enorme fluxo de visitação.
Os dois dias finais em Compostela foram de integração. Apenas olhar para mim mesmo, relaxar e deixar ir.
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