Já expressei em algum texto anterior que a coisa mais difícil que já fiz em minha vida foi sentar-me com meus filhos e informá-los de que eu estava saindo de casa.
Trazer todo o contexto aqui seria desrespeitoso com eles e com a mãe deles, que fez e faz o que pode em cada momento.
No entanto, a busca por mim mesmo tornou-se um impulso avassalador.
Percebo hoje o quanto foi necessário confrontar a resistência, tanto interna quanto do meu entorno, até o rompimento da represa.
Conversas difíceis, em que fazer o que eu sentia ser meu caminho enfrentou a resistência, o que apenas criou mais desgaste, algo que se estende até os dias atuais.
O desafio para tomar minha vida em minhas mãos era real e vinha carregado de culpa e de uma programação estrutural de não ser bom o bastante, uma luta que aconteceu, de fato, dentro de mim mesmo.
Tenho visitado este espaço, que também transita pelo não merecimento, ao longo de muitos anos.
Como uma forma de autopunição, carreguei (e percebo que, em momentos, ainda carrego) este fardo.
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Numa jornada marcada por uma busca insaciável, conheci muitas pessoas que realmente me ajudaram e apoiaram o meu movimento.
Entre tantas outras pessoas, trago a lembrança de uma querida amiga, Niaty, que me convidou para liderar os primeiros workshops de renascimento com ela. Foi ela, inclusive, que iniciou meus filhos e a mãe deles em Reiki.
Contudo, foram muitos os anos em que caminhei pelo mundo dividido.
De um lado, o executivo de multinacional e, depois, vendedor de adubos foliares e, finalmente, consultor empresarial.
Na outra dimensão, esta face minha, que viria a ser chamada de terapeuta.
A forja do terapeuta passou por um sem-número de vivências e experiências que não seriam possíveis dentro de uma relação afetiva, onde o meu papel no relacionamento do casal havia evoluído de forma imperceptível para uma posição paternalista e provedora. A relação homem-mulher, a relação de companheirismo, se perdeu.
Apenas nestes dias, consegui enxergar, reconhecer e nominar algo que, provavelmente, ainda poderá sustentar outras formas de entendimento.
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Anos depois desta separação impactante e de outras mais, foi que nasceu Dhyan Deepak, no mesmo círculo em que conheci Madha.
O conceito de companheiros de jornada sustenta-se ao longo das décadas de nosso relacionamento.
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Nossas organizações sociais criaram regras que buscam organizar a vida coletiva. E elas existem, em cada cultura, em escrituras ancestrais e nas formas constitucionais das nações.
Vi um filme retratando a vida das mulheres de uma família no século dezenove, onde a legislação da época entregava ao marido qualquer propriedade ou posse que elas pudessem ter, inclusive elas mesmas.
A separação seria devastadora para as mulheres, que seriam entregues à miséria, já que elas sairiam sem qualquer suporte da relação.
Minha mãe nasceu como propriedade de meu avô. Ela quis seguir com os estudos, mas foi obrigada a trabalhar, já na adolescência, e entregar todo o fruto do seu trabalho nas mãos do pai, até o seu casamento, quando mudou de proprietário.
Meu pai, contudo, foi capaz de sustentar uma relação muito mais equilibrada com minha mãe, numa sólida parceria de meio século, que se encerrou quando ele deixou este plano físico. Minha mãe pôde, então, após um profundo processo de luto, tomar a própria vida em suas mãos e viver um novo ciclo.
É importante deixar claro que não estou abrindo um tribunal para julgar e condenar o que foi e como foi.
Mas sim, olhar o que é.
Nominar o que é.
Para assim, a cura se tornar possível.
A equalização das minhas relações com meus familiares ainda carece de cura.
E, de fato, ao experienciar tudo isso, ao tomar posse das experiências de vida, é que a cura vai se assentando.
Sim, há trabalho a ser feito. Há vida a ser vivida.
Ao trabalho, portanto.
À vida.
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Toda a fundamentação deste cenário de desigualdade social e de gênero deriva de uma profunda crença coletiva na escassez.
A crença de que não há o suficiente para todos.
E, de fato, percebo ser este o principal alicerce da dualidade.
O medo da falta – de recursos, de amor, de afeto, de atenção – é esteio de um sistema onde a cooperação se extingue na competição, na luta pela sobrevivência.
Eu ou eles…
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Punir é a forma de dominação pelo medo.
Meu pai ajoelhou-se no milho, levou varadas no traseiro e reguadas na palma da mão. Tudo isso na escola.
Eu levei algum croque na cabeça, puxões de orelhas, broncas em alta voz e passei por interrogatórios coercitivos. Tudo na escola, igualmente.
Sim, hoje, qualquer atitude acima descrita já é parte integrante das contravenções penais.
Porém, a coibição de um comportamento através da punição ainda é o mecanismo de controle.
O controle pelo medo.
Estamos evoluindo?
Sim, sem dúvida.
Porém, a grande transformação que temos pela frente é muito mais profunda, como veremos mais adiante.
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A divisão.
A separação do meu casamento foi marcada pelo dualismo.
De um lado, culpa, desmerecimento, não ser bom o bastante.
De outro lado, exclusão – autoexclusão, como punição – autopunição, pelo abandono infligido a entes queridos.
A punição, a autopunição, é o mecanismo para gerar equilíbrio, em que a punição compensa a infração às regras.
Assim, o coletivo ainda carrega o padrão de cometer ou não a infração, pesando o risco de punição.
O castigo tem um pano de fundo como força motora: coibir a quebra da regra.
Atualmente, a coibição à quebra da regra do matrimônio não tem funcionado mais como no passado.
As estatísticas apontam para o divórcio de metade e bem além da metade dos casais no Brasil.
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Os desafios de aprendizado nestes tempos para mim mesmo e, ouso dizer, para o coletivo dizem respeito a como lidar com cada situação.
Num cenário de punição, a intolerância ocupa o espaço do amor.
A rejeição sustenta a ferida aberta. Pois o foco está na ferida.
A cura não pode acontecer enquanto a atenção estiver dedicada a alimentar a dor da ferida.
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Eu sou!
Podemos atribuir muitos significados a esta expressão. Desde a tomada do poder pessoal até a transcendência do próprio ego.
Indo além dessas possibilidades e não excluindo nenhuma, cabe chamar a atenção para uma faceta da preciosidade humana:
“Eu sou você”.
A empatia é a característica em evolução nestes tempos preciosos que vivemos.
Nas relações empáticas, a posição do outro é importante para mim, em igualdade à minha própria posição, ainda que sejam antagônicas.
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Houve vários momentos no processo de escrever estas linhas.
Momentos de desabafar mágoas, dores e tristezas.
Momentos de simplesmente parar de escrever, dar um tempo para processar toda a intensidade.
Momentos de retorno, de revisar o texto.
Revisar o texto reflete mudanças de perspectiva dentro de mim. Reflete uma suavização na minha visão daquilo que foi vivenciado.
Não uma minimização do que foi vivido, mas o acolhimento de todos os envolvidos e de mim mesmo, em amor e compaixão.
Momentos como este, em que percebo a amorosa metamorfose do próprio texto, espelhando a metamorfose que está acontecendo dentro de mim mesmo.
A cura é a metamorfose.