Era uma agradável tarde de maio. Eu seguia meus estudos preparatórios para o vestibular. Havia prestado exames no ano anterior, ao final do colegial, sem sucesso, para as escolas de engenharia mecânica, quando ia para a escola de manhã, fazia cursinho à tarde e “rachava” à noite. Porém, a falta de descanso para o corpo gerou uma sobrecarga que minou o aproveitamento dos estudos.

Até aquele momento, eu estava honrando uma demanda do sistema familiar, nunca expressa em palavras e tampouco percebida de forma consciente naqueles tempos. Meu pai, em sua jornada profissional, nunca ocupou cargos de gerência ou diretoria por não ter o diploma de engenheiro. Assim, ainda que inconscientemente, o primeiro exame vestibular que prestei foi para honrar essa profissão, num impulso inconsciente de preencher essa lacuna na história do sistema familiar no qual nasci nesta vida. 

Não entrei nas faculdades públicas almejadas e, assim, fiz mais um ano de cursinho. 

E foi nesse período, naquela tarde de maio, folheando um catálogo das profissões oferecidas pelas universidades estaduais, que eu mudei o rumo para a Agronomia.

Ao tomar a decisão, fui preenchido por imensa satisfação. Saí de dentro de casa para respirar e ter aquele céu azul, sem nuvens, como testemunha de minha decisão. A alegria de ter clareza do rumo a ser seguido. 

Minha família veio a saber da minha decisão meses depois, quando fiz a inscrição para o exame. Talvez, para garantir a integridade de minha decisão e diminuir o risco de eventual influência contrária. O que não aconteceu, mas sim, houve pleno apoio à minha escolha.

Contudo, estudar fora da metrópole foi um ato de sobrecompensação do medo. A coragem para ir além do medo, de sair do ninho e ir para o mundo.

O voo começou. 

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A Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz era povoada de tradições, entre elas, o então popular trote. Hoje, algo repudiado, condenado e ilegal – na época, era tradição!

Enquanto bixo (calouro, estudante do primeiro ano), fiquei careca no dia da matrícula, quando também recebi o nome de bixo: proteção. Isso porque minha irmã procurava me defender daquela “tradição”. Dias depois, no centro acadêmico, meu nome foi mudado para “Kaçapa”, depois de um veterano tentar colocar uma bola de sinuca na minha boca. 

Aos bixos, havia que usar chapéu de palha, em que os doutores (veteranos – alunos dos demais anos) assinavam os nomes com pincel atômico – grande honra… 

Havia aqueles calouros que se recusavam a participar de qualquer trote; estes eram os “bixos escrotos”, que repudiavam a tradição e, portanto, eram repudiados.

Eu era um “bagre ensaboado” para escapar dos trotes, que iam desde “brincadeiras” que colocavam o bixo em atitudes humilhantes – como ajoelhar-se e latir para formigas, etc. – até o que hoje seria tratado como abusos de várias ordens.

Apenas uma vez fui “convidado” – intimado seria mais adequado – para ir jantar numa república tradicional, a Jacarepaguá. Durante a refeição, à mesa: “quer ovo, bixo?”. E, quando passavam o prato com os ovos fritos, o incauto bixo – eu, no caso – não sabia que o prato acabara de ser aquecido sobre o bico do fogão e, ao estender a mão para recebê-lo, ganhava, além do susto, uma “leve” queimadura na mão.

Após o jantar, o jogo de Cubol, que consistia em tentar “pegar” um ovo besuntado com margarina com as nádegas e colocá-lo num pote. Após frustradas tentativas, vinha um doutor furtivamente por trás, pressionando o bixo contra o ovo – evidentemente, para gerar a ruptura do ovo…

A libertação dos calouros ao trote acontecia no dia 13 de maio: libertação dos escravos…

Nesta data, acontecia a tradicional passeata da Agronomia pela cidade, saindo do centro acadêmico até a praça central. A algazarra era grande e, animada pela bebedeira, era percebida pela comunidade piracicabana como uma verdadeira arruaça — o que, de fato, era…

Na última passeata em que tomei parte, já no último ano de faculdade, eu e um colega de república pintamos a cara de vermelho e preto. Naquele dia, nossa cuidadora da casa não veio, e almoçamos berinjela à milanesa, fatiada e frita em abundante quantidade de óleo, preparada pelo colega. Não queríamos sair de cara pintada na rua sem antes tomar algo para nos animar. Ocorre que a grande quantidade de óleo que encharcava as berinjelas fritas do almoço revestiu as paredes do estômago, o que limitou a absorção do álcool da “meia de seda” que tomamos. Assim, sem qualquer efeito da primeira dose, tomamos doses adicionais. E, mesmo sem o resultado esperado, fomos para a passeata.

Na caminhada até o local da saída da passeata, a resposta inebriante do álcool manifestou-se. Chegando ao centro acadêmico, a alteração da cognição já era enorme, o que removeu o filtro de limites. 

Mais ainda, durante a caminhada, eventualmente tomei uns goles de cachaça oferecida por outros alunos. Ocorre que, na época, o éter era comercializado em farmácias como removedor de esmalte de unhas, e muitos adicionavam esse produto à cachaça, para turbiná-la…

De fato, foi o que aconteceu comigo, o que turbinou a bebedeira. Lembro de alguns momentos da passeata, em particular quando passávamos diante de uma república tradicional, a Sobradão. O jogo consistia em tentar invadir a casa, subindo pela escadaria de acesso, a qual era prontamente defendida com um armário descendo pelos degraus. 

O cenário era dantesco, com troca de rojões nos dois sentidos, colchões sendo lançados pela janela e caindo sobre a rede elétrica, com as consequentes explosões dos cabos entrando em curto e gerando uma chuva de faíscas na rua. Em meio a esse caos, encontrei um carrinho de mão com um colega da faculdade deitado nele, bastante inebriado. Assim, conduzindo o carrinho velozmente, atravessamos o campo de batalha entre faíscas, rojões e a galera super animada…

Ainda naquela passeata, tivemos uma presença de inspiração bíblica em nossas fileiras. Alguém cobriu a cabeça com uma cabeleira artificial feita de fita cassete e, arrastando uma grande cruz de madeira, percorreu toda a extensão de nossa demonstração de insanidade. Em algum momento, que não recordo – lembra do éter na cachaça? –, devo ter me prontificado a aliviar o peso do sofrido caminhante. 

Terminei a passeata dentro da fonte da cidade, segurando a cruz. A foto foi para a primeira página do jornal local, onde minha namorada – e futura mãe de nossos filhos – fazia estágio. Não me recordo da manchete, mas remetia a alguma coisa como “a barbárie”. 

A ressaca teve lugar no banheiro da república dela, por sinal, mas vou poupar meus leitores dos detalhes…

No início da faculdade morei numa pensão. Pouco tempo depois, em uma república (casa compartilhada por estudantes), esta sem tradição e, portanto, local sem trote. No segundo ano, eu e colegas montamos nossa própria república, buscando criar nossa própria tradição.

Nossos trotes eram sublimados de qualquer agressividade, tipo, ao receber bixos para a ração balanceada (oferecíamos refeições aos bixos, para maior integração), perguntávamos se eles “puxavam fumo”. Lembro da reação de duas calouras. Uma olhou para a outra com ares de “vamos cair fora daqui”. Mas, antes da consumação da fuga, oferecemos a elas um barbante com uma bituca de cigarro amarrada na ponta, para puxarem o fumo, arrastando a bituca pelo chão. A brincadeira criava empatia.

Com grande determinação, entendi que os bixos chegavam muito enfraquecidos, talvez devido a tanto estudo para o vestibular. Assim, comprei na farmácia um litro de óleo de fígado de bacalhau (não aquela emulsão que nossas mães nos obrigavam a ingerir, mas o óleo puro de peixe). Copiosamente, os bixos visitantes recebiam uma colher de sopa, cada um, desse óleo nutritivo, conscientes de que estávamos dando uma decisiva contribuição para a saúde de todos eles… Foram mais de dois anos para dar consumo àquele líquido amarelo, viscoso e de cheiro e sabor asquerosos.

Houve uma ocasião de um bixo necessitar uma bicicleta emprestada para ir ao centro resolver alguma coisa, quando anunciamos um pedágio: ingerir três colheradas do óleo de peixe. Para diminuir o tempo de sofrimento, ou seja, engolir rapidamente, ele colocou as três colheradas num copo. Em outro, serviu-se de café, que adoçou com abundantes colheradas de açúcar. Assim, uma vez engolido o óleo, ele tomou sofregamente o café. Ao que ele descobriu que havíamos substituído o açúcar do açucareiro, por sal… 

Enquanto bixo, escapei da Xispada por morar em uma república não tradicional. Já os bixos da república que montamos não escaparam. 

Os bixos (apenas do sexo masculino) eram recolhidos para uma determinada república à noite. Todos juntos eram levados até um local mais afastado, para voltarem a pé para a cidade — sem roupas.

As roupas eram eventualmente amontoadas no local de destino, mas, quando nosso primeiranista, o Picolé, foi levado para a Xispada, os organizadores soltaram os bixos em uma área urbanizada da cidade e amarraram suas roupas, formando uma grande corda. Os habitantes da região chamaram a polícia, e os bixos vazaram como puderam com a chegada das viaturas, espalhando-se por toda a vizinhança. Horas depois, ainda havia bixos nus foragidos e perdidos nas imediações.

Minha noite terminou buscando Picolé na delegacia. Conversando com a autoridade, expliquei que aquele “japonês”* que estava vestindo uma camiseta por baixo, como se fosse uma calça, ainda era menor de idade, ao que o rapaz foi prontamente liberado.

*Jargão da época. Hoje, numa terminologia atualizada e politicamente correta, seria: nipo-brasileiro.

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Fui estagiário do departamento de entomologia (ciência que estuda os insetos). Fiz parte do Esquadrão Veneno. 

Ali, orientado pelo professor titular e pelos alunos mais velhos e de pós-graduação, aprendi a fazer ensaios de campo para posicionamento de diferentes pesticidas, posteriormente denominados agrotóxicos. 

Já se foi o tempo em que eu defendia o uso de químicos na agricultura, até por fazer parte de quadros funcionais de empresas fabricantes desses produtos. Hoje, entendo os recursos disponíveis como instrumentos para a produção de alimentos, mas que caminham a passos acelerados para produtos biológicos, botânicos, biodinâmicos e homeopáticos. As últimas duas empresas para as quais prestei serviços ofertavam ao mercado produtos botânicos.

Curiosamente, entretanto, a terminologia “tóxico” nunca foi aplicada a outros ramos da indústria química, como, por exemplo, os medicamentos, denominando-os “humanotóxicos”, já que muitos dos compostos pertencem às mesmas famílias químicas. Tampouco os inseticidas para uso doméstico e na jardinagem vieram a ser chamados de “casatóxicos” ou “jardinotóxicos”, já que as substâncias pertencem às mesmas famílias de produtos de uso agrícola, sendo muitos deles exatamente os mesmos compostos.

Perceba o conflito: o produto químico cujo uso no campo eu rejeito, pulverizo na minha casa para matar baratas ou pragas do jardim, ou compro na farmácia para aplicação no couro cabeludo das crianças para matar piolhos ou para ingestão direta para o controle de vermes…

Seja como for, aprendi, conheci e estudei experimentação. Ao longo desses anos pude desenvolver larga experiência na área de desenvolvimento de produtos para uso na agricultura.

Mais ainda, na minha carreira como agrônomo, trabalhei para a empresa pioneira na área de transgênicos, o que me capacitou a entender o funcionamento dessas tecnologias tão mal vistas pelo público em geral.

Há, de fato, uma corrida em direção às tecnologias genéticas, não apenas para uso agrícola, assunto que exploro em um capítulo específico sobre o DNA.

 

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A fonte da cidade, a mesma em que fui flagrado pelas lentes do jornal local, bastante inebriado, ainda foi brindada com uma limpeza. Eu já estava formado e, em visita à cidade, distribuí discretamente, de madrugada, uns 6 kg de sabão em pó nas águas da fonte que encontrei carecendo de higiene. Ao acionarem a bomba dos chafarizes pela manhã, formou-se um metro de espuma em toda a fonte. Limpeza feita!

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No meu primeiro emprego, em uma multinacional norte-americana, fui vender pesticidas agrícolas. Eram organoclorados, ainda que de persistência ambiental bem mais curta que os precursores dessa malfadada família, como, por exemplo, o DDT. Fui um dos últimos vendedores desses compostos, que foram vendidos ainda por mais de uma década em farmácias, em sabões para matar piolhos, por exemplo, mesmo após sua proibição na agricultura.

O trabalho demandava que eu me mudasse para o estado do Paraná, deixando para trás o mundo da metalurgia de meu pai, que já tinha, então, a assistência e dedicação de um de meus irmãos.

Comprei uma Variant II, bem usada, com dinheiro emprestado de uma de minhas irmãs – sempre gostei de uma banheira – e parti para o mundo. 

Começa a jornada profissional do Agrônomo. 

Nas áreas de pesquisa e desenvolvimento, construí uma carreira que rendeu muito movimento físico pelo mundo. Mais recentemente, fiz uma estimativa de ter percorrido cerca de dois milhões de quilômetros dirigindo diversos veículos.

Já a quilometragem aérea mundo afora vai se perder nas inúmeras viagens a trabalho, autoconhecimento e lazer. 

O gosto pela viagem nunca mais se desfez.

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E o diretor da multinacional foi demitido.

Pela primeira vez na minha vida profissional, em diversas empresas, eu não escolhi sair. Eu fui “saído”. 

Tempos de medo e incerteza. O sobrenome de uma empresa dá uma sensação de segurança. Porém, olhando para o setor agroquímico, no qual vinha prestando serviços, não enxergava futuro para mim ali. E, de fato, todas as empresas em que trabalhei não existem mais hoje, engolidas por fusões estratégicas, basicamente para enxugamento de custos.

Tornei-me consultor e saí pelo mundo qual “Dom Quixote de la Mancha” para enfrentar moinhos, mas, de fato, os meus próprios demônios.

Começou o desmonte do executivo. Uma longa jornada para renascer enquanto terapeuta. Foram muitos anos de cursos, experiências, vivências e meditação. 

Ao mesmo tempo em que eu descortinava um novo mundo de autodescobertas, que me impulsionavam a buscar mais e mais, a incerteza sobre o porvir se escancarou. 

Vieram dias difíceis. Financeiramente, eu não conseguia manter o padrão de vida para minha família, algo que fora possível com os salários de multinacionais.

Fazia viagens de 5000 km em doze dias para visitar meus clientes em Goiás e nos dois Mato Grossos, vendendo meus adubos foliares, de uma representação alemã que tínhamos — eu e Juan, meu parceiro, colega de empresas e grande amigo de origem peruana.

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No último dia da exposição dos soldados de barro da China, em São Paulo, encontrei esse companheiro de multinacional. Naquela fila quilométrica, eis que nos achamos. Ele noticiou que a multinacional detentora desses produtos estava largando a distribuição que ele representava. 

Ué, então vamos nós distribuir esses adubos foliares. 

Construí uma rede de representantes no cerrado brasileiro. Vender é uma arte em constante aprendizado, ainda mais para este profissional com formação em áreas de pesquisa e desenvolvimento. Mas eu tinha um bom desempenho em estar com as pessoas e criar os necessários vínculos comerciais de parceria. Assim, desenvolvemos o mercado para esses produtos, em um segmento altamente competitivo.  

Porém, em função de alguns negócios malfeitos (devolução de produtos, inadimplência), ainda que mais pesadamente em uma região que eu não atendia, entramos em dificuldades financeiras.

Quebramos quando um ex-colega de multinacionais prestou serviços de consultoria para nosso fornecedor alemão, atestando nossa situação difícil e propondo outro distribuidor, do qual por sinal, ele era sócio.

Ainda buscamos alternativas para manter os negócios, mas a distribuição naufragou. 

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Foi em meio a uma dessas viagens, cruzando o Triângulo Mineiro de carro, que, de repente, comecei a chorar. Profunda dor no coração, como se eu mergulhasse em um mar de tristeza. 

Naquele momento eu soube que teria que me separar da mulher e mãe de nossos filhos.

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O movimento de separação foi muito sofrido e doloroso. 

De fato, deixar os meus filhos foi a coisa mais difícil que eu fiz nesta vida.

Ainda percebo, em momentos, a mesma tristeza, uma chaga profunda, uma velha conhecida. Ela traz uma sensação de nunca ter podido atender às expectativas dos outros em relação a mim, de não ter sido capaz de oferecer o que esperavam de mim. A frustração de nunca ter dado o suficiente.

Trago, hoje, o aprendizado da impossibilidade de atender às expectativas alheias, de satisfazer plenamente as demandas de fora, do outro. Tudo o que eu possa dar, sempre foi, é e será insuficiente, uma vez que o corpo mental, a mente do ego, opera na escassez. 

Contudo, a sensação de não ter sido bom o bastante é como uma assombração que me perseguiu durante longos anos e, ainda em alguns momentos, sinto que carece de cura.

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